*Eu - metamorfose de mim.
É tempo de mudar as coisas que me fazem mal. Esvaziar as gavetas, libertar os espaços para o novo chegar. Diminuir os móveis da casa, aumentar os espaços da alma. Respirar.
É tempo de jogar fora as coisas estragadas que estão em mim. Precisar menos das minúsculas coisas que as mãos podem pegar. Doar pra alguém o que não é mais verdadeiro pra mim. Precisar mais das coisas que o corpo não toca. E abraçá-las.
É tempo de renúncia, de deixar pra trás as coisas que não me servem mais.
É tempo de rasgar os rascunhos errados que eu criei. De apagar as rasuras que rabisquei em papel amarelado de tanta vida.
É tempo de mudar! Mudar de rumo, de rota, de direção. Mudar de mares, mudar de ares. Levantar voo com asas novas. Atravessar pontes diferentes. Trocar o velho sapato gasto por uma caminhada nova e macia.
É tempo de decidir o que irá na bagagem, porque a nova viagem é longa. Encontrar e abrir o coração para o novo. Apaixonar-me por tudo outra vez.
É tempo de encarar alguma leveza. É tempo de deixar as mãos vazias e livres pra tocarem em tudo pelo caminho. Pintar outras paisagens, com cores outras que não as conhecidas, desbotadas.
É tempo de refrescar as águas dos meus banhos. Molhar o amor. Deixar que ele se lave em água pura, em nascente intocada, completamente nu.
É tempo de renovar, de mexer nos meus mecanismos.
É tempo de arrombar as portas pesadas que me impedem de entrar no meu próximo ser.
É tempo de janelas escancaradas e ares frescos e perfumados.
É tempo de bússolas imaginárias. De pés mais suaves e resistentes, de passos largos. É tempo de saltar sobre as pedras no meu caminho com molas gigantes e assim, no salto, agarrar algumas nuvens lá em cima.
É tempo de abrir as algemas que me prendem a mim. E é tempo de não achar-me descartável e vã. Sim. É tempo de não ser tão invisível, tão pouca, tão rasa, tão nada!
É tempo de encontrar algum tempo pra testar um sorriso e arriscar ser feliz, mesmo não tendo isso, aquilo... mesmo não sendo exatamente aquela que um dia eu quis.
É tempo de sonhar! É tempo de aceitar! E de não parar de lutar!
É tempo de agradecer às derrotas diárias. Fazer amizade com elas, pra que assim elas se amenizem. Fazer as pazes com os meus erros, porque todos foram impulsos de acertar.
É tempo de curar as feridas.
É tempo de entrar na minha caverna e hibernar por horas e dias. Metamorfosear minhas crisálidas.
É tempo de aprender a respeitar as coisas certas. É tempo de melhorar a visão. Marcar uma nova consulta ao oculista, pra quem sabe assim, ver de verdade o que é realmente importante. Renascer!
É tempo de admirar minha imagem no espelho. Deixar as rugas e o desassossego de lado um pouco. Exigir menos. Precisar menos das desimportâncias. Encontrar o meu êxtase na simplicidade. Fantasiar-me melhor. Despir-me melhor. Acreditar mais no que é bom. Ter mais fé que o novo que virá, virá melhor.
E rir. Rir muito. Rir incansavelmente.
Acreditar! Acreditar mais. Acreditar incansavelmente.
Acreditar que a vida trará recompensas.
É tempo de baldear e filtrar. É tempo de fechar os olhos para o meu antigo ser e num outro eu , acordar. É tempo de parar de chorar!
É tempo de nunca mais perder tempo com volúvel e passageiro. Porque é tempo de coisas eternas.
É tempo de destravar a memória! É tempo!
É tempo de encantar o tempo! Ter o tempo em minhas mãos. E o tenho.
É tempo de abrir as minhas entradas, de achar as minhas saídas... Aquelas que vão dar no infinito! Aquelas que são pulsação e vida! Aquelas que vibram! Aquelas que mudam, que carregam e guardam o meu destino.
É tempo de descobrir mais Eu em mim.
É tempo! É tempo!
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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