NO DIA EM QUE O MEU AMOR MORREU ©




Broken Strings - James Morrison ft. Nelly Furtado


No dia em que o meu amor morreu, fazia um calor-frio em tudo e o mundo mal respirava de tão denso o ar ao redor do corpo. O edredon manchou-se de pecado e a intuição do que viria destruiu a inocência que antes impregnava a existência das coisas.
No dia em que o meu amor morreu, um pássaro entoou seu canto triste e melancólico à beira da vida, um coração sensível em algum outro ponto do planeta parou por um milésimo de segundo e não entendeu nada, uma dor traçou um risco bem no meio de uma estrela... e a gata agitava-se num ir e vir indefinido entre miados aflitos. Tentava ela e tudo, avisar-me da ruína que viria assombrar a noite. E veio.
Porque tudo (absolutamente tudo) em nós, grita as coisas que não vemos.
No dia em que o meu amor morreu, as folhas tornaram-se outono, ventava muito e uma tempestade de raios se aproximava... Tudo tornou-se sal ou ácido, um gosto amargo na boca ou tudo isso indefinido, misturado... Era tudo insuportável. E tudo sangrou. E a raiva explodiu em desatinos e desesperança. Desesperança!
É que quando um amor morre, sobra só o caos nas coisas todas...
Quando o meu amor deixou meu corpo, o chão cedeu e um par de asas fracas e invisíveis chacoalhou à minha frente como num sussurro derradeiro, uma chance de não cair no abismo abissal que é quando um amor termina, quando um amor machuca e deixa tudo em carne viva.
Quando o meu amor morreu eu quis não sentir, quis o desapego, quis ser mais sábia, mais inatingível, mais perfeita. Mas eram tantos pedaços pelo caminho e todos me feriam de tal forma que o esquecer não encontrava caminhos dentro das minhas veias.
E eu me cansei. Porque acreditar às vezes cansa.

No dia em que o meu amor morreu, calou-se a poesia, silenciou-se a música, nenhum som havia. Apenas um eco de solidão palpitava, inevitável, na ponta dos dedos.
E tudo foi virando bruma... apagou-se a paisagem, a ilusão, a cama, a calma... Desapareceram os projetos, a vontade, as palavras, a voz, o prazer. Apagou-se o caminho, fecharam-se as asas, as janelas, o tempo. Apagou-se tudo...

No dia em que o meu amor morreu.


Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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Foto: Augusto Peixoto

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FIM ©

*Não. Não é tristeza. Você nunca entende. É um Fim, que um dia, de repente, vira Sim.


Disarm - Smashing Pumpkins


Sabe por que eu grito esse silêncio?
É porque nada mais importa.
Vou fechar a porta que me une ao que eu chamo de mim. Des-existir das palavras, porque nada mais adianta e o fim é logo ali. Parece uma gruta, sepulcro de pedras... mas é passagem.
Talvez fosse mais sensato se eu saísse por aí como antigamente, mãos dadas com algum poema ou criação ou música ou rima ou sorriso... mas sei lá onde foi que eles foram parar. Foram ficando pelo caminho, acho. E eu deixei os rastros todos pras entrelinhas.
Você sabe.
Lembra quando era tudo tão simples que cabia inteiro nas nossas mãos? Lembra quando havia motivos para continuar com essa coisa de ser? Motivos para inventar amores como uma forma de identificar nossa solidão? E a vida passando era a coisa mais linda e tudo virava eternidades?
Eu me lembro.
Mas nada mais importa.
Vou seguindo assim em moto-contínuo porque não encontro mais dentro de mim os caminhos. Desintegro minha vontade, esfarelo quereres e por fim, termino.
Deixo os restos do que eu não fui para algum outro nascer.
Porque agora nada sou e nada há.
Serei, daqui pra frente, mera espectadora de mim.

Mas isso é apenas um fim.


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FAÇA-ME O FAVOR! ©

Para alguém que me fez tempestade. Antes e ainda....

Ora! Faça-me o favor de não andar mais com os pés no chão
Aprenda a enfrentar com coragem a tua própria inundação
Faça a tua casa bem perto da arrebentação
Não tente nunca escapar da minha invasão
Porque o meu amor tem a força de um furacão
E por ti enfrenta a submissão
Torna-se cio, criação... vira inspiração
E se bobear, tu não aguentas não!

Faça-me o favor de diminuir o medo e a aflição
De aumentar a temperatura até atingir teu ponto de ebulição
Faça o favor de desfazer os nós e a tensão
De beber inteira a minha vida e a minha poção
Porque meu amor é suave intoxicação
E querer-te é calma e devassidão
E eu te dedico todo o meu tremor e a minha sedução
E por ti, abandono a minha solidão!

Ora! Faça-me o favor de colocar-se todo na minha mão
Tenha a coragem de rasgar teu coração
De me tirar da exposição. De me salvar da corrosão
De me dar tua erosão e por mim perder o chão
Deixe-se abrir e ensina-me o que é paixão
Que meu amor por ti queima feito carvão
Não te esqueças de ser toda a minha ambição
De perceber minha intenção. De me dar sustentação.

Ora! Faça-me o favor de aprender minha canção
Faça-me o favor de jamais me negar teu tesão
De sempre me olhar com os olhos do coração
E de sempre estender-me tua mão
Porque meu amor é estreia e reveleção
Fruta mordida em maturação
Oferenda em altar pagão
Porque meu amor é tua nau, tua embarcação.

Ama-me agora, urgente, imensidão
Que a vida é breve e eu não te espero não
Eu te amo concreto e intuição
Porque todo o resto é ilusão, acredites tu ou não
Meu amor é tentação e libertação.

E eu sei... nada em mim é vão!


Van Luchiari ©
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